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Terça-feira, 12 de Maio 2026

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Juros elevados pesam mais sobre a dívida pública do que os gastos do governo, apontam economistas

Especialistas contestam a visão predominante, argumentando que a alta taxa de juros beneficia o setor financeiro em detrimento da economia produtiva e dos serviços essenciais.

Juros elevados pesam mais sobre a dívida pública do que os gastos do governo, apontam economistas
© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
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A percepção de que as despesas governamentais são as principais vilãs da economia, conduzindo inevitavelmente ao aumento dos juros e da dívida pública no Brasil, é contestada por especialistas. Em vez disso, são os elevados custos dos juros pagos pela União – que totalizaram impressionantes R$ 1 trilhão em apenas um ano – que exercem pressão sobre o endividamento estatal, comprometendo a oferta de bens e serviços produtivos e gerando lucros substanciais para as instituições bancárias do país.

Essa análise provém de três economistas entrevistadas pela Agência Brasil, que desafiam a tese amplamente aceita no jornalismo econômico. Essa tese sugere que os juros altos são uma resposta necessária aos gastos públicos e uma ferramenta indispensável para o controle inflacionário.

Juliane Furno, professora de economia da Universidade Federal Fluminense (UFF), ressalta que o fator primordial para a elevação da dívida pública no Brasil reside nos juros, e não nas despesas “primárias”, que são destinadas ao pagamento de funcionários e à manutenção dos serviços prestados à população.

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“É uma hipocrisia afirmar que os juros altos são uma consequência da dívida, pois, na verdade, são eles que a provocam. Ao analisar os componentes da dívida pública, percebe-se que o déficit primário tem um impacto mínimo”, declarou a doutora em economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Nos últimos 12 meses, até março, o Brasil desembolsou R$ 1,08 trilhão em juros, o que corresponde a 8,35% do Produto Interno Bruto (PIB). Em 2026, a Dívida Bruta do Governo Central – que abrange União, INSS, estados e municípios – registrou um crescimento de 1,4 ponto percentual (p.p.), atingindo 80,1% do PIB, equivalente a R$ 10,4 trilhões.

Conforme comunicado do Banco Central, os juros nominais foram os principais responsáveis por esse aumento. “O acréscimo [da dívida] de 1,4 p.p. do PIB resultou da incorporação de juros nominais (+2,4 p.p.), das emissões líquidas de dívida (+0,4 p.p.)”, detalha o relatório.

Maria Mello de Malta, professora de economia política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), considera que o atual modelo macroeconômico, que conjuga taxas de juros elevadas com a exigência de cortes nos gastos primários, é fruto de uma decisão política – e não meramente técnica – que privilegia uma economia voltada para o setor financeiro.

“O que mais me surpreende é a forma como se trata um país do porte do Brasil como uma mera plataforma financeira, como se fôssemos Suíça ou Ilhas Cayman, que são minúsculas. É condenar 210 milhões de pessoas a uma vida cara e endividada para beneficiar um setor que emprega tão pouco e que, afinal, já obtém ganhos consideráveis”, enfatizou a economista.

Juros, dívidas e gastos

O crescente endividamento das famílias brasileiras, que motivou o lançamento do programa Novo Desenrola pelo governo, reacendeu o debate sobre as taxas de juros reais praticadas no país, as segundas mais altas do mundo, superadas apenas pela Rússia.

Nesse cenário, economistas com visibilidade na imprensa frequentemente justificam a atuação do Banco Central (BC) como uma reação à trajetória dos gastos públicos estatais, argumentando que essas despesas teriam o poder de estimular a demanda e, consequentemente, impulsionar a inflação.

A solução proposta, nesse contexto, seria a redução dos gastos públicos, uma medida que poderia comprometer serviços essenciais como saúde, educação, segurança e afetar direitos como a aposentadoria dos trabalhadores.

O próprio Banco Central, por meio das atas de seu Comitê de Política Monetária (Copom), tem reiterado a necessidade de cortes de gastos, denominados “disciplina fiscal”.

“O Comitê reafirma a visão de que o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros”, consta na ata do final de abril.

Tese alternativa

Por outro lado, um grupo de economistas diverge dessa avaliação. Para esses especialistas, os gastos públicos devem ser protegidos, pois beneficiam principalmente as camadas mais pobres da população, enquanto os juros devem ser reduzidos, uma vez que favorecem apenas o mercado financeiro.

Ao mesmo tempo, essa corrente defende que a inflação deve ser controlada, prioritariamente, por meio do estímulo à oferta, e não apenas pelo combate à demanda, como é feito pela taxa Selic praticada pelo BC. O próprio Banco Central estima que cada aumento de 1 p.p. na Selic eleva a dívida em mais de R$ 50 bilhões.

A professora da UFRJ, Maria Malta, salientou que, para o governo reduzir a dívida pública, é imperativo cortar os juros.

“Os juros representam a maior despesa que o governo precisa arcar. Em contrapartida, o gasto público possui um efeito multiplicador na economia. Gastar menos tem um único efeito: piorar o crescimento econômico, aumentar o desemprego e a dívida, pois o lado da receita diminui quando o crescimento desacelera”, explicou a doutora em economia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Para a especialista, também não é pertinente comparar o Estado a uma família ou a uma empresa, como alguns economistas fazem para criticar o endividamento estatal, que tenderia a gastar mais do que arrecada.

“A lógica do indivíduo privado é completamente diferente da do Estado, porque o indivíduo privado não emite sua própria moeda, nem define sua taxa de juros”, elucidou.

Estimular a oferta

A professora de economia Maria Lourdes Mollo, da Universidade de Brasília (UnB), avalia que a dívida pública do país tem crescido continuamente devido aos juros.

“O governo gasta excessivamente pagando juros. Ele precisa direcionar seus gastos para proteger a população mais vulnerável e assegurar o crescimento da capacidade produtiva da economia, em vez de beneficiar apenas o setor financeiro”, afirmou.

A professora Maria Lourdes, doutora em economia pela Universidade de Paris, reconhece que juros altos podem reduzir a inflação, mas adverte sobre os “altíssimos” custos sociais envolvidos.

“Quem está arcando com esses juros elevados são as pessoas que dependem do dinheiro para alimentação, moradia, cuidados com a saúde. E essas necessidades não podem ser reduzidas. Por outro lado, quem se beneficia com esses juros altos são aqueles que atuam no mercado financeiro. E isso é o que está incorreto”, completou.

Para Lourdes, a inflação deve ser combatida também pelo lado da oferta, incentivando a produção como forma de reduzir os preços. Contudo, ela alerta que os juros elevados impedem o crescimento da oferta.

“Há um impacto negativo da taxa de juros altas sobre a capacidade produtiva da economia. Isso é muito prejudicial porque inibe, a médio e longo prazo, o crescimento da oferta e retira, inclusive, possibilidades de resolver o problema da inflação de uma forma mais definitiva”, concluiu a professora da UnB.

Gastos públicos

Sobre a parcela de economistas que defende que a via para cortar juros é reduzir os gastos públicos, Maria Mello de Malta argumenta que o Estado não detém controle sobre as necessidades de educação, saúde e aposentadoria da população.

“Não há como o governo, atendendo ao Banco Central, reduzir gastos da noite para o dia. O Estado não controla a saúde ou a educação da população. Isso está diretamente relacionado ao crescimento populacional, à idade dos trabalhadores, das pessoas que vão nascendo, etc.”, explicou a professora da UFRJ.

Para a professora Juliane Furno, da UFF, o Estado não “gasta demais”, como frequentemente justificam alguns economistas, pois a Constituição brasileira prevê a prestação de serviços públicos que demandam um volume maior de recursos do que em outros países.

“É evidente que o Estado brasileiro tem despesas maiores do que o chileno, por exemplo, mas isso é resultado de escolhas distintas. O Estado brasileiro optou por oferecer saúde de forma universal, ter educação pública e garantir assistência social”, relembrou a especialista.

A tese que propõe o corte de gastos e as privatizações como solução para diminuir o endividamento público, abrindo caminho para a redução dos juros, é questionada pela professora Maria Mello de Malta.

Para ela, trata-se de uma “visão ideológica” que tem como objetivo expandir ao máximo o espaço econômico para a atuação do setor privado em busca de lucro.

“No momento em que se privatiza, não se privatiza apenas o custo. Privatiza-se o lucro também. Privatizou-se a Eletrobras e não há mais o lucro da Eletrobras para ser distribuído ao Estado e melhorar a situação da dívida”, finalizou.

FONTE/CRÉDITOS: Lucas Pordeus León - Repórter da Agência Brasil
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