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Sexta-feira, 05 de Junho 2026

Notícias/Saúde e Bem-Estar

Um em cada quatro brasileiros desconhece que o câncer pode ser prevenido

Estimativas do Inca apontam 781 mil novos casos anuais de câncer no triênio 2026/2028, um aumento de 10,9% em relação ao período anterior, influenciado pelo envelhecimento populacional e hábitos de vida.

Um em cada quatro brasileiros desconhece que o câncer pode ser prevenido
© Paulo Pinto/Agência Brasil
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Uma parcela significativa da população brasileira, correspondente a um quarto dos cidadãos, não tem conhecimento sobre a possibilidade de prevenção do câncer. Essa constatação faz parte do relatório 'Mais Dados Mais Saúde - Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer', divulgado recentemente.

A pesquisa buscou entender como os brasileiros percebem e interagem com diversos fatores de risco para o câncer, incluindo o tabagismo, o consumo de álcool, a ingestão de alimentos ultraprocessados e o sedentarismo.

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), estima-se que ocorram 781 mil novos casos de câncer anualmente no Brasil durante o triênio 2026/2028. Esse número representa um crescimento de 10,9% em comparação com o período anterior, sendo atribuído ao envelhecimento da população e a estilos de vida.

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Este estudo representa a primeira investigação nacional sobre o conhecimento dos brasileiros acerca da prevenção do câncer, abordando suas opiniões e comportamentos. A pesquisa foi conduzida pelas organizações Umane e Vital Strategies, com o suporte do Instituto Devive e a colaboração técnica do Inca. Foram entrevistadas 6,5 mil pessoas em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal.

Fatores de risco

Enquanto alguns hábitos, como fumar e a exposição solar desprotegida, são amplamente reconhecidos como perigosos, outros fatores de risco para o câncer não recebem a mesma atenção. O sedentarismo, por exemplo, figura entre os menos percebidos, com menos da metade dos brasileiros (48,3%) associando a falta de atividade física ao desenvolvimento da doença.

Luciana Grucci Moreira, Chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca, observou uma evolução na percepção da população brasileira, especialmente quando comparada a estudos internacionais.

O tabagismo é um exemplo notável, com 90,5% da população adulta brasileira reconhecendo que fumar causa câncer. Outros fatores com alta percepção incluem histórico familiar (89,4%) e exposição excessiva ao sol (88,3%).

Em contrapartida, outros fatores apresentam menor reconhecimento: bebidas alcoólicas são apontadas como risco por 71,3% dos entrevistados; alimentos embutidos, como presunto e salsicha, por 70,7%; e ultraprocessados, como macarrão instantâneo e salgadinhos, por 65,6%.

A especialista atribui essa variação na percepção à eficácia de políticas públicas e campanhas informativas, exemplificadas pelas ações implementadas em relação ao cigarro nas últimas décadas.

“Advertências em embalagens, impostos para elevar o preço do tabaco, ambientes restritos de fumo. Ou seja, um conjunto de políticas públicas e muita campanha informativa, de comunicação, que já foram desenvolvidas acerca do tabaco”, explicou.

Ela acredita que a ampliação da percepção pública sobre outros fatores de risco requer ações semelhantes às já realizadas para o cigarro.

O estudo também revelou que uma parcela da população desconhece o aleitamento materno como fator de proteção contra o câncer de mama. Aproximadamente 40% dos entrevistados não possuíam essa informação.

“A mulher que amamenta tem uma proteção maior contra o câncer de mama quando comparada com aquela mulher que não tem oportunidade de amamentar”.

Obesidade

O sobrepeso e a obesidade são reconhecidos como fatores de risco para o câncer por apenas 54,1% da população. Da mesma forma, o consumo de bebidas açucaradas (refrigerantes), a baixa ingestão de frutas e verduras e o sedentarismo são associados ao câncer por somente 55,3%, 53,3% e 48,3% dos adultos brasileiros, respectivamente. A carne vermelha é identificada como um item que eleva o risco de desenvolver câncer por menos de três em cada dez brasileiros (27,5%).

“Lembrando que não é só a informação que é determinante para uma escolha alimentar. Existem outras questões como o acesso ao alimento, renda, preço dos alimentos, marketing. A gente precisa avançar em outras políticas públicas também conjuntamente para promover não só essa percepção, como a melhora das escolhas mais saudáveis por parte da população”, defendeu.

Ela ressalta a importância de políticas públicas para mitigar fatores ambientais e comportamentais que aumentam o risco de desenvolvimento de câncer, como a prática de atividade física e uma alimentação equilibrada.

“Não é só falar: ‘faça atividade física’. A rua em que a pessoa mora tem que estar iluminada, com segurança, para ela praticar exercício. A política pública tem esse papel de dar a opção de melhores escolhas para todos esses fatores de risco”, esclareceu.

Comportamentos

A pesquisa também analisou os hábitos da população em relação a fatores de risco para o câncer, como o consumo de embutidos, ultraprocessados, carne vermelha e bebidas açucaradas, além de questionar a intenção de reduzir o consumo.

Cerca de 45% dos indivíduos relataram consumir produtos ultraprocessados e ter tentado diminuir a ingestão, enquanto 33% afirmam não consumi-los e 15% os consomem sem intenção de reduzir o hábito. Quanto a refrigerantes e outras bebidas adoçadas, aproximadamente 53% indicaram consumo com tentativa de redução, 27% não consomem e cerca de 15% não desejam diminuir a ingestão.

Em relação à carne vermelha, observou-se uma maior proporção de indivíduos que relataram consumo sem tentativa de redução (cerca de 45%), seguida por aqueles que consomem e tentam reduzir (aproximadamente 40%), enquanto o não consumo é menos frequente (em torno de 10%).

Em contrapartida, 86,3% da população declarou consumir frutas, legumes e verduras. Dentre os que não consomem, 8,3% manifestaram a intenção de iniciar o consumo.

Jovens

O relatório aponta que os jovens de até 24 anos são os maiores consumidores de alimentos associados a fatores de risco, sem intenção de reduzir o consumo. Esse comportamento foi relatado por 32,3% em relação a ultraprocessados, 24,4% para bebidas açucaradas, 29,5% para embutidos e 49,1% para carne vermelha.

No que diz respeito às bebidas alcoólicas, substância ligada a pelo menos oito tipos de câncer, metade da população (50,1%) informou não consumir, enquanto 32,5% dos que consomem já tentaram reduzir o hábito. Os jovens até 24 anos representam a maioria entre os que declaram beber e não ter intenção de reduzir (16,9%), um índice similar ao de 8,7% entre pessoas de 25 a 59 anos e 7,1% entre os maiores de 60 anos.

Sedentarismo

Quanto ao sedentarismo, 52,2% dos entrevistados afirmaram praticar atividade física e 39% expressaram o desejo de começar a se exercitar. Indivíduos com maior poder aquisitivo demonstram maior conhecimento sobre a importância da atividade física na prevenção do câncer. Cerca de 45% dos que recebiam até R$ 2 mil apresentaram menor proporção de conhecimento sobre o sedentarismo como fator de risco em comparação àqueles com renda igual ou superior a R$ 10 mil (59,6%).

Questionados sobre o peso corporal, 48,8% se consideraram dentro do peso saudável. Entre os que reconhecem ter excesso de peso, 31% afirmaram estar tomando providências, número que cai para 22,9% entre pessoas com renda inferior a R$ 2 mil, em contraste com mais de 40% entre aqueles com renda acima de R$ 3 mil.

Estratégias

Luciana Moreira, gestora do Inca, avalia que os resultados do estudo fornecem subsídios para o planejamento de estratégias eficazes na disseminação de informações de qualidade para a população.

“Se a população hoje não reconhece, por exemplo, que as carnes processadas aumentam o risco de câncer, essa informação é muito importante para nós, que trabalhamos com ações de prevenção e com criação de políticas públicas, de que é preciso investir em estratégias de comunicação”, afirmou.

Luciana Sardinha, da Vital Strategies, considera que o estudo tem um impacto positivo ao despertar o interesse da população pelo tema. “Ao dar visibilidade aos resultados, eles chamam a atenção da população para os fatores de risco para o câncer”.

FONTE/CRÉDITOS: Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil
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